Leilão de Reserva de Capacidade de 2026 (LRCAP)
O Brasil acaba de contratar cerca de 19 GW de potência, algo próximo de 10% de toda a capacidade instalada do país, em usinas que, em um cenário ideal, nunca deveriam ser usadas.
Esse é um dos aspectos mais curiosos, e menos discutidos, do Leilão de Reserva de Capacidade de 2026 (LRCAP)
Diferentemente dos leilões tradicionais, o que se comprou aqui não foi exatamente energia, mas disponibilidade. Na prática, o sistema elétrico passa a pagar para que determinadas usinas estejam prontas para operar em momentos críticos, mesmo que permaneçam desligadas na maior parte do tempo.
À primeira vista, pode parecer ineficiência. Por que contratar algo que talvez não seja utilizado? A resposta está no risco.
Com o avanço acelerado das fontes renováveis, especialmente solar e eólica, o sistema brasileiro se tornou mais limpo, e também mais dependente de condições climáticas. Quando essas fontes não entregam, é preciso ter uma retaguarda capaz de entrar em operação rapidamente.
E essa retaguarda, hoje, ainda é térmica.
O leilão escancara uma realidade pouco verbalizada: a transição energética brasileira não é apenas uma questão de expandir renováveis, mas de garantir que o sistema continue funcionando quando elas falham.
No fundo, o país está pagando por um seguro. Um seguro contra apagões, contra eventos climáticos adversos e contra a própria incerteza de um sistema em transformação.
A questão que fica não é apenas técnica, mas econômica: quanto custa essa segurança, e como esse custo será distribuído ao longo do tempo?
Mais do que um leilão, o que se viu foi um sinal claro de que o debate sobre confiabilidade deixou de ser abstrato e passou a ter preço.
E ele não é baixo.
